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O lado sombrio da academia

O Lado Sombrio Da Academia

Mia Couto traduz os ritos acadêmicos como “cultos sombrios de glorificação do saber” e clama por mais poesia no fazer científico que, segundo o biólogo e escritor africano, “vive de costas para a necessidade de trazer leveza e construir beleza”. E eu… concordo.

O rigor e a solenidade do meio acadêmico acabam por trazer essa capa cinzenta à academia. Nela precisamos adequar nossos pensamentos aos métodos e nossa escrita às margens pré-definidas. Precisamos estabelecer critérios de acordo com o que já é conhecido e precisamos percorrer um longo caminho produtivo para poder refletir com liberdade e fazer proposições.

Ao ingressar em um mestrado ou doutorado ingressamos em um mundo regido por uma orquestra já afinada na qual os papéis estão muito bem erigidos. Precisamos achar nosso lugar em meio aos nossos desafinos enquanto lutamos por uma aprovação do coletivo. A produção acadêmica está eivada por uma cultura do saber distorcido: burocrático, metódico e cansativo.

Nós, acadêmicos, estamos sofrendo de psicoses como depressão, ansiedade e ataque de pânico. Grupos de apoio estão sendo criados para que esses mais afetados pelo cotidiano acadêmico não sejam esmagados e expulsos, mesmo que o desejo pelo saber e pela construção de conhecimento sejam guias de suas caminhada. Há algo de errado e todos sabemos.

Ao chegar lá, os mestres, doutores e pós doutores submetem seus orientandos aos mesmos ritos de passagem, acreditando que se eles passaram, é porque é possível e assim deve ser. Não sustentam o pensamento de que devemos repensar o método e rediscutir o cotidiano para que se adapte à realidade dos que a ele sobrevivem.

Fiz duas graduações, pós-graduação lato sensu, mestrado acadêmico e diversos cursos de formação antes dos 28 anos de idade. Construí um currículo diversificado e aposto na construção do conhecimento pelo diálogo entre os saberes. A transdisciplinaridade. Estudei nas minhas formações: filosofia, linguística, política, literatura, direito, educação, comunicação. Angariei diferentes formas de pensar ética, cotidiano, Estado, relações, negociações, conflitos. E não me sinto preparada para escrever academicamente sobre qualquer um desses assuntos.

Escrevi inúmeros textos, mas eles não se enquadram ao gênero “artigo científico” então eles são previamente excluídos, pois precisamos submeter nossa produção de conhecimento a revistas cujo corpo científico exige que a fala do pesquisador esteja enquadrada nas normas previamente definidas (fonte, tamanho, espaçamento, tipo de citação, número de páginas, e outros). E eu, a estilo Mia Couto, “não pertenço a esse respeitável círculo de colegas que fazem o pensamento científico a sua profissão de fé, a sua crença única e exclusiva”. Sou adepta de que há muita beleza no saber e que apesar de não se confundir ciência com poesia, ambas podem dialogar com leveza.

Tenho sincera admiração por meus colegas e professores que tratam a academia com tanto rigor e tanto empenho. Sinto orgulho por ter pertencido a tão seleto grupo, e espero poder transitar nos seus espaços com liberdade e amizade. Mas confesso que estou deslocada. Meus esforços foram insuficientes à pesquisa pretendida e meus escritos não se adequam às expectativas. Talvez eu seja muito poesia onde o que se pretende é ciência.

Mas não me engano, o ambiente me encanta. Os textos a serem lidos, as reflexões aprofundadas e as discussões formadoras são puro encantamento. Produção de conhecimento, pura e simples. A cada leitura, a cada aula, a cada discussão, novas possibilidades se abrem e novas conexões neurais se estabelecem (eu sinto). Saio mais desconfiada e mais crítica. E eu gosto.

O problema é que não me enquadro. Sentar em frente ao laptop e escrever de 20 a 30 páginas times New Roman tamanho 12 espaçamento 1,5 referências em rodapé normas ABNT resumo de 10 linhas com 3 palavras-chave abstract e subtítulos em negrito citação tamanho 10 recuo de 4 é uma verdadeira tortura.

Foram essas inúmeras sentadas para cumprir tantas exigências para mostrar o que aprendi e dizer o que refleti é que me travaram para contribuir e eu desenvolvi uma doença da qual nunca tinha sofrido: o pânico. O peito doía como se tivesse uma faca atravessada. O coração acelerava. As mãos tremiam e o pranto descia. Minha fraqueza emocional talvez tenha contribuído, é minha culpa não ter conseguido – ao menos como se espera que se consiga de alguém que chegue aonde cheguei. Parei no mestrado.

Quiçá um dia vença esses bloqueios e mergulhe no edital de um doutorado justamente porque a produção de conhecimento me fascina e os saberes me fazem ver sentido em ter chegado até aqui. Tenho dificuldade de me enquadrar. Adquiri várias habilidades e consigo contribuir com diferentes pessoas e situações e por isso hoje atuo como consultora. Posso me apresentar como advogada, como educadora, como linguista, como crítica literária, como mediadora de conflitos. Tenho formação nessas e em outras coisas. Mas hoje me defino como escritora.

Escolhi a literatura não porque tenho talento natural, mas porque a liberdade de expressar o que sei e o que sinto por métodos não pré-definidos me fascina mais do que a vaidade pelos meus títulos. Em breve meus escritos estarão por aí, e talvez eu consiga te surpreender, propondo algo além de suas expectativas.

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