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Comunicação não-violenta. O que é isso?

Comunicação Não-violenta. O Que é Isso?

Entusiastas da boa comunicação, pacífica e eficaz, buscam aplicar em seus diálogos, sejam eles cotidianos ou profissionais, o método desenvolvido por Marshall B. Rosenberg, a chamada comunicação não-violenta (CNV).

 

 

A CNV é baseada em habilidades de linguagem e comunicação e nos ajuda a reformular o modo pelo qual nos expressamos e ouvimos, buscando desenvolver a prática de uma postura compassiva mesmo em situações adversas.

A ideia basal da CNV é a prática consciente de nossas sensações e pensamentos em uma conversa, identificando o que nos afeta para então conseguirmos nos expressar com sinceridade e clareza em nossos diálogos.

Também tem como ideia primordial ouvir o nosso interlocutor com empatia, buscando compreender as necessidades do outro ao invés de diagnosticar e julgar.

O mais interessante é que nosso interlocutor não precisa saber da técnica, tampouco percebê-la. O que irá fazer com que o diálogo flua é nossa postura no diálogo.

Mas como aplicar a CNV?

O PROCESSO DA CNV

Para adotar o método da CNV, precisamos adotar, primeiramente, uma postura sincera em relação aos nossos próprios sentimentos e sensações, tentando despir-se de julgamentos.

Para a adoação da CNV em uma determinada situação, primeiro, precisamos observar o que de fato está acontecendo, da maneira mais neutra possível (sem avaliações ou julgamentos). O segundo passo é perceber os sentimentos e sensações que aquela situação me causa (medo, alegria, ciúme, raiva); para então tentarmos reconhecer quais são as nossas necessidades que estão conectadas a esses sentimentos. Só então, com a identificação desses 3 primeiros elementos é que passamos a manifestar nosso pedido (uma ação concreta do outro que eu espero para que minhas necessidades sejam atendidas e meus sentimentos possam ser positivos).

É importante, nesse processo, que, ao nos expressarmos, coloquemos todos esses elementos em pauta, ou seja, que manifestemos ao outro o que observamos, como nos sentimos, qual a nossa necessidade envolvida, para então fazer o pedido.

“Filho, quando você deixa a toalha molhada em cima da cama, eu me sinto irritada, porque terei que trocar a roupa de cama que fica molhada e pode embolorar, causando alergia em você e na sua irmã. Você poderia não deixar mais a toalha molhada na cama?”

Note que, no primeiro momento, a prática é individual e interna: 1° observar a situação; 2° perceber sentimentos; 3° reconhecer necessidades. Depois de ter clarificado esses três elementos é que eu exponho o pedido ao outro, mostrando o que me leva a fazê-lo.

O processo da CNV se baseia em 4 componentes: 1. Observação; 2. Sentimento; 3. Necessidades; 4. Pedido

À medida que adotamos essa postura, é natural que aqueles que convivem conosco aprendam a adotar também uma postura similar e cabe a nós, se quisermos ter uma comunicação mais efetiva e menos violenta com essas pessoas, passarmos a ajudá-las a se expressarem também dessa forma. O que nos leva a identificar as duas grandes partes da CNV: 1. expressar-se honestamente (4 elementos) e 2. receber com empatia (4 componentes).

Nas palavras de Rosenberg, “a essência da CNV está em nossa consciência daqueles quatro componentes, não nas palavras que são efetivamente trocadas”. Vale lembrar que nem sempre o outro manifestará seu pedido expondo os 4 elementos, mas caberá a nós que adotamos a CNV a ouvir com empatia tentando identificar esses elementos em sua fala ou em suas atitudes. Sempre buscando não avaliar e não julgar, mas tentando compreender.

Ao adotarmos a CNV, naturalmente assumimos uma postura compassiva, e as situações adversas passam a ser menos conflituosas. Isto porque ao adotarmos a CNV nos nossos diálogos, passamos a nos perceber melhor e a nos conectar com mais empatia com os outros, guiando-nos em um processo de reformulação da maneira pela qual nos expressamos e ouvimos.

Para conseguirmos de fato adotar a prática da CNV, precisamos deixar de aplicar formas de comunicação que nos alienam de nosso estado compassivo natural, o que Rosenberg chama de comunicação alienante. São mecanismos que impedem o fluxo do diálogo, bloqueiam a interação e, consequentemente, afetam nossas relações.

TIPOS DE COMUNICAÇÃO ALIENANTE

O primeiro, e muito comum, tipo de comunicação alienante é pelo uso de julgamentos moralizadores, que emitimos quando a outra pessoa não age de acordo com os nossos valores. Ao adotarmos essa abordagem, nosso foco está em analisar e classificar o erro ao invés de percebermos quais necessidades, nossas e do outro, não estão sendo atendidas.

Para Rosenberg, “essas análises de outros seres humanos são expressões trágicas de nossos próprios valores e necessidades”; e ele as classifica como “trágicas” por entender que essa forma de expressão reforça a postura defensiva e a resistência ao diálogo.

Outro ponto relevante nesse tipo de comunicação, é que ao se submeter ao comportamento desejado por aquele que emite um julgamento moralizador sobre nós, muitas vezes o fazemos não porque concordamos que é a melhor forma de agir, mas porque acabamos agindo pautados no medo, na culpa ou na vergonha. Nesse ponto, destaco um passagem do livro de Rosenberg:

“Todos pagamos caro quando as pessoas reagem a nossos valores e necessidades não pelo desejo de se entregar de coração, mas por medo, culpa ou vergonha. Cedo ou tarde, sofreremos as consequências da diminuição da boa vontade daqueles que se submetem a nossos valores pela coerção que vem de fora ou de dentro. Eles também pagam um preço emocional, pois provavelmente sentirão ressentimento e menos autoestima quando reagirem a nós por medo, culpa ou vergonha. Além disso, toda vez que os outros nos associam a qualquer desses sentimentos, reduzimos a probabilidade de que no futuro venham a reagir compassivamente a nossas necessidades e valores” (p.39).

Além dos julgamentos moralizadores (que diferem dos juízos de valor, pois estes refletem nossas análises do que é melhor para a vida, enquanto aqueles incidem sobre comportamentos de outros que não coincidem como nossos valores); a negação de responsabilidade é outra forma de comunicação alienante.

Assumirmos uma postura na qual não nos responsabilizamos por nossos pensamentos, sentimento e atos é adotar uma postura defensiva e perigosa para as relações. E a linguagem que adotamos obscurece a consciência dessa responsabilidade, com o uso de expressões como “ter que/de” (tinha que ser feito dessa forma) ou “fazer alguém sentir-se” (Fulano faz com que eu me sinta culpado); ou mesmo quando atribuímos nossos atos a papeis sociais, autoridades, políticas institucionais, etc.

A fuga da responsabilidade bloqueia a possibilidade de diálogo sobre determinada situação.

Algumas outras formas de expressão bloqueiam o diálogo e, por sua vez, a compaixão, sendo, portanto, formas de comunicação alienante. Segundo Rosenberg, podemos incluir nessa lista de condutas comunicativas bloqueadoras da comunicação compassiva (i) fazer exigências e (ii) vincular a ideia de recompensa/punição.

Quando forçamos o outro a agir de determinada maneira, seja por exigirmos ou por atrelarmos a conduta a uma recompensa e/ou punição, nós incentivamos o outro a isolar o que se passa dentro dele, e a pessoa não irá adequar sua conduta por acreditar que a mudança lhe será benéfica, mas pelo simples fato de evitar punições. Eu consigo o comportamento desejado, mas ao passo que prejudico a minha relação com aquela pessoa que, ao longo do tempo, guardará frustrações ou mesmo traumas atrelados ao comportamento ditado por nós.

Adotar a CNV como estratégia comunicativa é bastante eficaz na medida em que percebemos a melhoria nas nossas relações. Nem sempre e nem em todas as situações vamos conseguir controlar nossos impulsos e deixar de nos expressar de maneira espontânea, mas, como toda técnica comunicativa, o seu uso cria o hábito. E à medida que desenvolvemos esse hábito, passamos a perceber que podemos ter diálogos muito mais eficazes com aqueles que estão a nossa volta e a consequência disso é ter menos ruídos e menos mal entendidos na convivência.

A CNV é também bastante utilizada como técnica por profissionais que tratam de conflitos, como mediadores, conciliadores e negociadores; chegando-se a resultados bastante satisfatórios nesse quesito.

Bora experimentar?

 

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